sábado, 15 de setembro de 2012

Pela 1ª vez, a rua

Hoje estive na manifestação organizada no Porto, de protesto contra as medidas de austeridade que o Governo está a implementar. Pela primeira vez na vida entendi que a minha presença na rua tinha sentido; entendi que essa era a minha forma de manifestar o desacordo com o que se está a passar no meu país e com a forma como o Governo trata as pessoas em nome das quais, e para as quais, tem um mandato para governar. Esperava uma manifestação apartidária e que não fosse alvo de aproveitamentos políticos (pelo menos explícitos, directos) e foi isso que encontrei.
Caminhei em silêncio a maior parte do tempo pois não me identifico com as frases e palavras de ordem proferidas.
A calúnia e o insulto não são opção para mim na vida privada e também não o podem ser na vida pública. Compreendo que são fruto de emoções ao rubro, são porventura uma forma de exteriorizar a raiva, a decepção, a angústia, o desespero... mas não são formas, no meu entender, de estar e participar, em democracia. Não me identifico com este tipo de manifestações, prefiro o silêncio.
Não quero que este governo caia. Acredito que seria desastroso para Portugal (imaginem uns meses de um governo "em gestão", um ciclo eleitoral dispendioso, cheio de promessas e ilusões, um novo governo a começar, a desculpar-se com o anterior, etc., etc. sem que nenhum dos nossos problemas reais se resolvesse) e parece-me até o "caminho mais fácil" face às dificuldades e à contestação. Não, não - quero que fiquem, quero que cumpram com o seu mandato, a sua missão.
Quero que este governo faça o seu trabalho, mas que o faça melhor - que se esforce, que trabalhe arduamente (como todos nós, aliás!), que pense, que ouça, que pondere, que decida e que cumpra com as promessas feitas, que faça aquilo a que se comprometeu com os portugueses. Quero que tudo faça para conhecer melhor a realidade do país, quero que tenha coragem e enfrente os "poderes e lobbies instalados", sejam de que natureza forem, quero que não escolha sempre o caminho mais fácil, o das soluções de curto prazo e das medidas que "agradam" e nos permitem sobreviver a mais uma avaliação da troika e recebermos o prémio de bom comportamento. Quero que este governo tenha humildade para escutar (o povo, os parceiros, a oposição, as pessoas válidas e conhecedoras que temos entre a sociedade civil), e a coragem para falar ao povo com verdade e com respeito e sensibilidade.
Também não acho que os nossos problemas são causados pela troika e, como tal, não quero que se vão embora. Quem assim o exige não tem, seguramente, noção do que está a pedir. Um país à beira ou mesmo na bancarrota não é uma coisa bonita de se querer... Quero que a troika fique e faça o seu trabalho - de supervisionar, de recomendar medidas, de avaliar o seu cumprimento; e quero que, mais uma vez, o Governo esteja à altura de negociar com os nossos credores, que lute para defender os interesses do país (não apenas para obedecer cegamente) e para que reunamos condições de cumprir com as nossas obrigações e pagar as nossas dívidas; somos pessoas e um povo de bem, outra coisa não posso aceitar.
Estive na rua e tenho uma esperança: que a manifestação generalizada de descontentamento, de incompreensão, de desânimo e de desespero de um povo seja motivo de reflexão para o governo; que seja oportunidade para rever medidas e modificar o rumo traçado. Ainda há tempo para o fazer, daqui até à elaboração e votação do Orçamento; para ponderar alternativas mais justas e equitativas, para evitar o agravamento das condições de vida de todos nós em 2013.
Esta é a minha esperança, que desejo não seja uma utopia.
Foi por isto que estive na rua hoje, pela 1ª vez.

3 comentários:

joui disse...

obrigada por este texto, que reflecte muito bem o estado de espírito de quem não quer ir à rua só para insultar, mas que quer uma mudança sustentada, pensada, ponderada, com sentido.
vamos acreditar que sim, que nos vão dar ouvidos.

beijinho

Cesa disse...

A tua reflexão é digna desta partilha, é aquilo que todos queremos. Acima de tudo, eu gostava que os rostos sem esperança que vi na televisão possam sonhar por um futuro melhor. É tão triste ver os jovens sem esperança, sem direito a sonhar por um país melhor. Eu não fui à rua, mas conheço muita gente que foi pela primeira vez, acho que a mensagem a transmitir foi entendida na perfeição. E espero sinceramente que tenhas razão, que ainda tenhamos tempo, que não seja tarde demais. Um beijinho e muito obrigada por esta reflexão tão lúcida como emocionante.

Piquenina disse...

Escreves tão bem e tenho tanta pena que não tenhas oportunidade para escrever mais aqui.
É tão bom ler-te!